Projecto Cabo Verde 2006

Voluntariado universitário de Portugal, em colaboração com associações locais da Cidade da Praia, tendo em vista a promoção do desenvolvimento humano e cultural da população da Calabaceira

terça-feira, agosto 08, 2006

Dia 1 de Agosto de 2006, 3ªfeira

Surpresa Castanha …, Agri-Doce

Finalmente chegámos, depois das grandes expectativas criadas em várias cidades ao longo do rectângulo lusitano!
E connosco chegou a chuva, que nesta terra é uma bênção, há muito tempo desejada – há mais de 8 meses não chovia, e a noite foi de tormenta, como nos contou a Raquel Lamela, que nos esperava com uma das forças vivas locais, a D. Nandinha.
À nossa espera estavam também as forças armadas: homens robustos que nos puxaram, e à nossa múltipla bagagem (30kg per capita, 15 dos quais, no mínimo, de material comum), num só trago para cima de uma camioneta de caixa aberta, bastante enferrujada.
A viagem foi radical, ao vento, por entre o pó da estrada, com algumas ultrapassagens que nos fizeram subir a adrenalina… (aquele cara a cara com o táxi…).
Não há fotografia, nem postal, nem filme, nem descrição, capaz de transmitir o que sentimos. O cheiro, a humidade, o calor, o castanho invade-nos todos os sentidos, impedindo-nos de respirar. No coração de cada uma de nós instala-se a surpresa do entrar num mundo diferente.
Casas cinzentas e inacabadas, misturadas no castanho e negro de uma paisagem vulcânica, ressequida pela seca que grassa no país há mais de 15 anos; algumas acácias, aqui e ali, são das poucas sobreviventes entre as espécies vegetais; mulheres, homens e crianças, na sua azáfama citadina, lembram-nos desde já aqueles a quem queremos beneficiar directamente com a nossa estadia. Um cenário real em que não se deixa de destacar uma pobreza que a maioria de nós até agora não conhecia.
Atravessamos a Cidade da Praia onde reinam os contrastes entre casas com cores vivas e estruturas de prédios cinzentas e nuas. Ouve-se música quente vinda de todo o lado. As crianças brincam no meio da lama, resultante da chuvada da noite anterior, os adultos sentam-se em conversa alegre nas esplanadas tristes.
Aproximamo-nos do nosso Bairro, Bairro da Calabaceira. Avistámos por fim a Escola Secundária onde vamos ficar. Uma ilha trazida da civilização ocidental plantada junto a uma larga ribeira, seca e suja, que ladeia todo o Bairro. É impressionante o contraste entre o azul e branco da Escola e o castanho das ruas.
Braços acenam à nossa chegada e os sorrisos abertos das voluntárias que chegaram na noite anterior recebem-nos entusiasmados, afagando qualquer amargura que nos tivesse assaltado pelos contrastes já visualizados. Estavam em plenas limpezas e, por isso, especialmente desgrenhadas e encardidas, quase irreconhecíveis. Foi óptimo juntar toda a equipa do Projecto Cabo Verde 2006!!!
Apesar de nova (oferta da cooperação luxemburguesa, inaugurada há pouco mais de 6 meses), a Escola ainda não tem luz nem água por razões…, no mínimo curiosas… (falcatruas do electricista, disseram-nos). A racionalização destes bens, apesar dos esforços que nos exigirá, vêmo-los como uma aproximação às carências com que a população da Calabaceira e dos restantes bairros limítrofes da Cidade da Praia vivem.
Juntámos os esforços de todas e aprontámos o resto das salas da Escola Primária – ao lado da nossa. Uma delas foi transformada em Capela, com o parecer técnico de arquitectas em projecto bastante conceituadas (Inês Trigo) e as múltiplas opiniões e sugestões das que passavam por ali. Dentro dos possíveis pensamos que ficou digna e vai-nos permitir ter a companhia do Senhor na Eucaristia durante os próximos dias. Celebrou-se a Santa Missa e apoiámos ali o trabalho que vamos realizar.
E para terminar bem o dia, devido à chuva, uma praga de formigas voadoras gigantes invadiu a Escola, fazendo pensar a muitas se tinham feito bem em vir…
Neste fim de dia, resta-nos apenas organizar por alto a bagagem e o início deste nosso projecto.