Projecto Cabo Verde 2006

Voluntariado universitário de Portugal, em colaboração com associações locais da Cidade da Praia, tendo em vista a promoção do desenvolvimento humano e cultural da população da Calabaceira

sábado, agosto 26, 2006

Dia 14 de Agosto, 2ª feira

E depois, e depois nada!...

Último dia em Cabo Verde. As consultas e os pensos continuam em marcha da parte da manhã. Enquanto isso, há que fazer limpezas a toda a escola, às salas das actividades, arrumar o material que trouxemos para o distribuir às pessoas responsáveis, desde o hospital e centro de saúde à escola primária, deixar tudo arrumadinho, fazer as malas. Dão-se os últimos presentes aos miúdos e fica aqui um caso em particular que impressionou muito a Cátia. Um rapazinho com os seus 11 anos, no final da manhã, quando ela regressava das limpezas no dispensário médico após o fim dos pensos, abeira-se-lhe e pergunta se não lhe pode dar as sandálias, que leva calçadas. Por acaso até as tinha trazido já para ficarem, no lixo provavelmente, porque já eram muito velhas. Alem disso, todas sujas. Diz-lhe que já são muito velhas e estão sujas, se ele quer aquilo assim. Ele diz que sim, que não tem mais calçado e que quer ficar com elas. Deu para pensar nos vários pares de sapatos que ficaram em casa e sentir-se ridícula. Respondeu-lhe que então, ia “tomar banho”, lavar depois as sandálias e que as traria para ele. Pergunta se podia ficar à minha espera. Diz-lhe que sim. Passada hora e meia volta. E lá está ele ao portão. Dá-lhe as sandálias lavadas, que ele calça logo, e uma t-shirt da Sapo. A cara radiante com que ficou encheu-lhe a alma…
Depois de tudo arrumado, ainda há tempo para irmos à cidade gastar os últimos escudos ou acabar as trancinhas. Há gritos, muitos gritos desta vez. Parece que é a Gisela e a Ana Raquel. “É que elas puxam mesmo, pá, não dá para aguentar!” Às 18h volta a haver missa campal, vespertina da grande festa da Assunção de Nossa Senhora, feriado em Portugal e também aqui.
No final, é a despedida. Há lágrimas, canções, danças, a viola da Joana e a “Calabaceira é bonita”, 5º sucesso introduzido na cultura cabo-verdiana pelas portuguesas. Abraços, beijinhos, promessas de regressar, autógrafos, fotografias… Que bom foram estes dias aqui passados! Que saudades já, e ainda não partimos! Mas é verdade também, que já sentimos umas saudaditas de Portugal!... Seja como for, valeu a pena, valeu a pena tudo.
No meio de dias tão alegres e divertidos, só mesmo a morte de um rapazinho do Bairro. que passava férias noutra ilha e a cujo funeral assistimos, é que turvou o rosto desta gente. Todo o tempo restante foi de grande convívio, serviço, partilha, amizade, entrega recíproca, conversa animada, jogos, cantorias, danças, aprendizagens, pinturas e… composto! Sim, meninas, porque caso não saibam, o composto foi melhorado no último dia com os restos orgânicos da nossa comida, acumulados ao longo deste tempo, que foram carinhosamente depositados, cobertos com terra, folhas secas e regados com água. Quando voltarmos para o ano e virem o fertilizante que saiu dali e a horta da escola verdejante, vão todas calar-se e deixar de gozar com a Guida e a Sarinha, mais os sacos de restos vegetais fedorentos que acumulavam… Ai as meninas… Viva o composto! Viva!
Bem e depois do jantar é hora dos últimos retoques. Deixar tudo pronto, pegar nas malas e já ali estão os tropas que nos vão levar para o local de onde nos trouxeram. À partida, muitos miúdos e graúdos nos acenam (nem a Selecção tem um acolhimento destes!) e o Sr. Ângelo, um dos professores da escola que muito nos ajudou nestes dias, oferece-nos pastilhas e amendoins para a viagem, que fazem as nossas delícias. São sorrisos que ficam gravados na nossa memória.
No aeroporto estamos, sem exagero, 2-3 horas à espera do check in e depois para entrar no avião, porque como já dissemos, o nosso ritmo não é o ritmo de Cabo Verde. E enquanto eles trabalham calminhos, a maioria do grupo arrasta-se e à malas, a Maria Coutinho pega na sua almofada e deita-se no chão, muitas em cima das malas, a Cátia aproveita para tirar as últimas fotos (sim, porque ainda faltam 20 para chegar às 891 do cartão) e vamos tentando não desesperar. Já no avião, onde a Sara Tavares também vai (há vinda tinha sido o Jorge Andrade), só temos cabeça para pôr o cinto e… dormir até à hora do pequeno-almoço, 6h. Atrasamos os relógios 2 horas e… Lisboa à vista! Que diferença de paisagens! Prédios, estradas, rotundas, postes de electricidade, campos cultivados… Portugal! É bom estar de volta. Mas melhor ainda é ter tudo isto para contar! Sim, porque a Calabaceira não termina aqui, assim. O que é que vamos fazer com os dias que passámos lá? O que vamos guardar? O que vamos viver a partir daqui? Regressamos diferentes, isso todas notamos. E não dizemos só mais sujas. Dizemos por dentro (e não são os intestinos…). Foram um tesouro estes dias. Uma grande riqueza. Não tenho dúvida nenhuma que ganhámos todas muitíssimo mais do que o que demos, que foi uma gota num oceano. O que vamos então fazer com o que recebemos durante estes dias? Eis a recomendação expressa da Cátia (a escrivã da 2ª parte do diário, a partir do dia 8; antes foram as valorosas Catarina e a Filipa Félix que, entre as dificuldades da falta de computador, da falta de electricidade - que tanto “vai-se como vem-se”…. -, da falta de tempo, conseguiram dar os primeiros sinais de vida para os leitores do blog…): Não se esqueçam de continuar agora a ser voluntárias, sim, voluntárias, em casa, com a família, no bairro, na catequese, na faculdade, entre os amigos e os namorados… Voluntárias: aquelas que estão, que vão, que fazem, que são o que lhes diz a vontade, sem obrigações. Então queiram muito! Como nos dizia, e à população da Calabaceira, o sacerdote que nos acompanhou nestes dias, “sejam valentes e façam o bem bem feito”! Até para o ano, amigas! Vão juntando bonés!

Post scriptum: como estamos com problemas em pôr fotos no blog, avançamos com as fotos da Gisela, para matar alguma curiosidade. Cremos que ela não se importará :-)

E para continuar a estar a par do PROJECTO CABO VERDE - sim, vai ter continuidade! - consultar o site do Projecto.

Dia 13 de Agosto, Domingo

O preço das necessidades…

O dia começa cedo. Missa campal às 7.30h. Muita gente presente como sempre. Tomamos o pequeno almoço, que por ser Domingo, mete croissants de chocolate, para além do habitual leite condensado cozido que é a única guerra entre as voluntárias (não é Joana? E Helena?... Suas egoístas!...), e partimos nos autocarros habituais. Desta vez, a volta é para o lado oposto do Domingo passado de forma a vermos toda a ilha. Paisagens magníficas que deslumbram… Mas o melhor está para vir: a Cidade Velha! Uma fortaleza - o Forte de S. Filipe -, impecavelmente recuperado, rodeado por aquilo que parece ser um oásis no meio de tanta seca. Deste lado da ilha, já se vêem casas com telhados como os nossos, mais estradas e construções, muitas palmeiras, alguns campos… Para aqui já vêm turistas, que aproveitam as praias de areia negra e água quentinha. Também nós temos uma assim à nossa espera. Mas antes podemos ver macacos que respondem à nossa buzinadela com um aceno, muitas terrinhas, onde, invariavelmente a população nos acena, o local onde o Papa João Paulo II celebrou a Missa quando visitou Cabo Verde em 1990 - Quebra Canela -, alguns hotéis… Depois, a desejada praia. Mas tão grande é a viagem que à chegada, para além do mar, o destino procurado é mesmo uma casa de banho (pois, que nós ainda não nos habituámos a ser tão naturais como os nossos meninos!). Esta agora é digna de ser contada. No café da praia, dizem-nos que só se consumirmos é que podemos usar o WC. E nós, apertadas mas sem dinheiro para gastar, vamos à procura de solução melhor. Parece que há qualquer coisa pública. Só esperamos que tenha autoclismo! Daqueles que se carrega e sai mesmo água! E não é que há mesmo casas de banho públicas? E até têm um ar asseado! … Corremos para lá, mas eis que chega uma senhora, que deve ser quem guarda o local, a perguntar para onde é que nós vamos, que não se pode entrar assim, e a perguntar o que é que nós queremos. A resposta era um pouco óbvia, mas se a senhora quisesse podíamos dar-lhe os pormenores das nossas intenções!... Não, não era uma pergunta inocente! Afinal, não são mesmo indiferentes os pormenores das nossas intenções quanto ao WC. E querem saber porquê? “Se querem fazer xixi é 10 escudo, se querem fazer pupu é 20 escudo!” O quê?! Não, não devemos estar a ouvir bem… Mas qual é a diferença?... A substância? O tempo? Pois, porque a descarga do autoclismo é igual em ambas as situações… A limpeza? Quando ouvimos as regras já algumas tinham ido à casa de banho. Eu queria ver se não tivessem dinheiro! E já agora, como é que a senhora sabe o que é que a gente fez?! Não se riam. Mas ela pergunta-nos à saída. E é claro que nós somos sinceras, né? Mas algumas não ficam satisfeitas com o serviço. Querem saber a razão do preçário. Até porque usar o chuveiro com champô incluído também é 20 escudo. Perguntam à senhora. E ela, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, diz “Então porquê?, porque o xixi não precisa de papel e o pupu precisa!” E respondemos por dentro “Só se for para a senhora!” O curioso é que não havia papel nas casas de banho, nem a senhora nos deu nada. No comments. Mas não se espantem, porque como já foi dito em dias anteriores, em cabo Verde tudo pode acontecer e nada do que temos como certo, o é aqui. Aqui tudo pode acontecer!
Depois da aventura no WC, o desejado mar. Mas é tal a temperatura da areia, que só se aguenta ir a correr para o mar! Realmente aqui o sol queima mesmo, com a agravante de a areia ser preta! Não se pode estar parado muito tempo. Depois do almoço, algumas conversam, outras dormem para ver se ganham algum bronze de jeito, outras aprendem o jogo do ouro - ou oril? -, outras vão de barco dar uma voltinha no mar (e é ver a Mila remar!). Lá para as 17h é tempo de regressar e é pelo caminho, numa outra terrinha, que lanchamos. À noite são os escaldões, os cremes, os banhos junto ao poço em fato de banho, os planos para amanhã e… muitas trancinhas! Já há muitos cabelos prontos para fazerem sucesso em Portugal!

Dia 12 de Agosto, Sábado

Calabaceira em Festa!

Sábado. Dia de festa. Há muito a preparar. Vai haver teatros, danças, entrevistas, canções. Antes é preciso montar o palco. Como devem imaginar, a Catarina - que ficou responsável por salvaguardar o trabalho contínuo dos senhores que gentilmente se ofereceram para montar o palco -, tem tarefa difícil. Para já, porque os miúdos são aos magotes e depois, porque os senhores trabalham ao nosso já conhecido ritmo cabo-verdiano, que é bem diferente do português. Não tem “stresses”, correrias ou preocupações. Tudo se leva na desportiva. Para verem o que quero dizer: os aparelhos de som que estavam prometidos chegaram depois da festa. Valeu-nos o senhor que empresta o som para as missas campais estar por ali nessa altura!
A festa, depois de todos os sustos, é um sucesso! Com apresentadora cabo-verdiana, muito, muito público (terão sido umas 1.000 pessoas? Só miúdos são mais de 500…), com cenários muito coloridos (pintados com muito carinho por muitas mãos voluntárias), parece um milagre. Digo milagre, porque contrasta com o cinzento das casas, o lixo das ruas, a confusão diária que os miúdos fazem. Ali, todos cientes do seu papel, perfiladinhos, mostram que quando querem também conseguem fazer coisas bonitas!
O engraçado é que o nosso estimado palco (à base de bidons e barrotes de madeira), na última dança, começa a dar de si, para desespero das monitoras que esbracejam para que as adolescentes saiam de lá. Mas elas julgam que é parte da dança… O palco não cai, é certo, mas esteve muito perto disso...
No final de tudo, é o ataque aos balões que enfeitam o recinto, para ver quem rebenta mais. Aos balões e ao cenário, que as monitoras vêem desaparecer aos bocadinhos por entre as mãos divertidas dos miúdos. Nesta hora, é um bocado salve-se quem puder, porque os miúdos começam a pegar nas cadeiras para as “atirar” para as salas, como ordenam as monitoras, e para além disso, está a passar música africana e quando se ouvem estes ritmos as pessoas como que entram em transe e não há quem as pare - segundo diz a Helena, “viram bicho”! É a festa deles, a que nós assistimos estupefactas!
Ao fim do dia, como habitualmente, reza-se o terço, dando graças por estes dias de actividades a que hoje se põe fim. E como habitualmente, o terço termina com o cântico “Boa noite Maria”, o 4º sucesso que instalámos.
À noite, na tertúlia, há doces! Parece que a Marta Faria e a Gisela foram visitar uma senhora que faz doces de leite, coco, amendoim e papaia com muito açúcar para vender e que está à espera das nossas encomendas. Então, todas provam os bocadinhos das amostras e é uma lista de pedidos a sair. Que delícia!
Num dia desta semana, houve um grupinho (Rusa, Patrícia, Raquel Bouça e Lda.) que foi visitar o Bairro com a D. Bidi e o Manu (se a Bidi é o braço direito, o Manu é o braço esquerdo da questão; faz parte da Associação Comunitária para o desenvolvimento da Calabaceira, se bem me lembro, e anda sempre pela escola, para ver se precisamos de alguma coisa). Puderam ver com os seus olhos como vive a população, fazer o levantamento das necessidades e conhecer os meios de que dispõe. Pelas fotos que tiraram e que estarão disponíveis para todos, foi muito interessante este passeio.
Por esta altura, e visto que faltam 2 dias para irmos embora, já há algumas que começam a marcar “as suas cabeleireiras”, pois parece haver muita gente interessada em ir para Portugal com o cabelo entrançado - “trançado”, como se diz por aqui.
Na tertúlia da noite, já se ouve falar do projecto “Cabo Verde 2007”, agora que conhecemos as necessidades das pessoas e escutámos os seus pedidos. E por vontade delas, tinham aulas de inglês, francês, português, até um curso bíblico! Toda a gente se mostra interessada em tudo o que nós lhes trazemos. Nunca se cansam. Nós, é que já sentimos um bocadinho quase 2 semanas de trabalho em cima, em condições não habituais. Mas não deixamos a boa-disposição e a boa-vontade! Amanhã é dia de descanso! Uff, que dia!

Dia 11 de Agosto, 6ª feira

“É verdade, tou-lhe dizendo que tenho 11 anos…”

Foi falta grave das cronistas, mas até à data ainda não referimos a nova habitante da escola. Chegou na 2ªfeira passada de madrugada e veio para trabalhar: a Brízida! Da empresa “Molécula do Saber”, veio para dar um curso intensivo aos gestores e directores das escolas de toda a Cidade da Praia - cerca de 50 -, e por aquilo que conta a D. Bidi (que é a directora da escola primária onde damos as actividades, nosso braço direito), está a ser muito interessante. A Brízida rapidamente se adaptou às nossas casas de banho de copo e às refeições em movimento. Sim, porque pegamos nós no garfo para levar o empadão à boca e num zzás, 4 moscas pousam nele. Assim, temos de comer com uma mão e abanar com a outra. É giro. Às vezes mal se vê a loiça suja que fica pousada cá fora enquanto espera pela vez de ser lavada, tal é a quantidade de moscas que a cobrem. Há para aqui também umas formigas de cabeças brancas, umas baratas daquelas que fazem “crunch” quando se pisam e uns grilos gorduchos que completam a arca de Noé. De vez em quando tem de se ir buscar “Dum-dum” para mandá-los à vida! Mas nada a que não estejamos já habituadas.
E em relação à casa-de-banho de copo é bom notar que tendo em conta algumas curiosidades que não é bonito nem limpo contar agora, o nosso Staff viu-se obrigado a colocar nas casas de banho uns avisos que explicam tudo o que uma pessoa estranha à realidade precisa de saber para se comportar dignamente. Há uns poucos de avisos diferentes espalhados por toda a escola para que ninguém se perca. Mas os mais procurados por todas, são mesmo os que ficam ao pé da cozinha. Em cada dia, o nosso Staff - Xanda e Helena - faz a divisão das tarefas e à noite a romaria é até lá. Todas vão ver se não ficaram nas limpezas, mas como a escola é grande, calha sempre um bom grupo nestas tarefas.
Hoje o dia é de muito trabalho. Amanhã é a festa e tem de se ensaiar tudo. Uma paródia como sempre! No consultório e nos pensos as filas não param e já se instalou um cheiro tremendo de feridas em estado avançado no quartinho minúsculo onde fazemos estes últimos. O que vale são as velas de cheiro que a Raquel põe lá a arder (eu não disse que ela tinha solução para tudo?) e o frasco de água de colónia que a Cátia despeja no chão. Tem de ser! Pelo bem dos doentes! Bem, doentes, isso é que já é discutível. Cada vez mais os maiores curativos a fazer são fixos, de pessoas que vão lá todos os dias. Os restantes, são miúdos com feridas de muitos meses, que apodreceram, a quem não dói nada do que lhes fazemos e que esperam, mais que o curativo, o bonequito que lhes vamos dar no final. Sim, porque vendo a nossa despensa com tantas coisitas miúdas que conseguimos trazer de Portugal, levamos para o dispensário o que podemos para distribuir a quem lá vá. O problema é quando vão lá com feridas inventadas só para receber qualquer coisa. Às vezes vamos aos arames! E diz a Diana a uma miúda: “O que é que tu tens?” E apresentando-lhe um cotovelo completamente limpo, só se pode mesmo responder: “Ai é isso que tu tens, um cotovelo?! Olha, eu também tenho um desses! Mas isso não é para tratar!” E lá se vai a rapariguinha embora toda triste com o seu cotovelo.
Histórias destas também acontecem nas actividades com os miúdos. Por exemplo: a actividade é para crianças dos 10-12 anos. Chegam uns à porta e a monitora, cumpridora do seu dever, pergunta-lhes a idade. Eles deitam uma miradinha lá dentro, calculam mais ou menos a idade dos que lá estão e respondem com a maior naturalidade possível: “Tenho 11.” Perante tal facto, é claro que a monitora o deixa entrar, apesar de a sua memória visual lhe jurar que na véspera aquela mesma cara tinha 8 anos e esteve na outra actividade!
Outra que eles também gostam de fazer é usar o nosso nome para conseguirem alguma coisa. Como nós andamos etiquetadas toda a gente sabe o nosso nome. Então um Chico esperto vai à nossa escola e diz que a Cátia disse para lhe darem água. É claro que a Cátia nem o conhece, nem lhe falou, provavelmente, mas cruzou-se com ele o tempo suficiente para ler o nome na lapela (que por sinal está todo jeitoso, acompanhado de uma Cruz e uma Bíblia, símbolos da responsabilidade da catequese, mas que faz o gozo das demais. Que parece uma acólita, dizem!).
São estes os nossos miúdos. Marados, mas amorosos. E todos os dias alguma recebe um desenho com as voluntárias, uma carta, um presente… E já agora, não com os miúdos, mas com os mais velhos, se nós quiséssemos casamentos, não havia problema por estas bandas, era muita a oferta! Há uns episódios caricatos nestes assuntos. No fundo o que se nota nos mais velhos é o mesmo que se nota nos mais novos: carências. Todos querem carinho e atenção e vêem-nos assim disponíveis para todos, simpáticas e generosas, que se aproximam para ver se reparamos neles. E nós reparamos, porque gostamos de todos. Muito. As pessoas estão contentíssimas com a nossa presença e algumas disseram mesmo que tinham pena de isto ser por pouco tempo e que gostavam de também nos poder ensinar algumas coisas suas, “que houvesse mais intercâmbio”. É verdade que sai mais de nós para eles do que o contrário, porque o tempo esgota-se, mas temos de dizer que, por exemplo, no crioulo, a língua falada por toda a gente aqui (apesar do português ser a oficial), a Kika faz maravilhas. Pegou num bloquito e apontou umas quantas frases essenciais ao início de uma conversa. O resto, é só colocar um pouco de sotaque abrasileirado, abrir as vogais, falar alto, cortar as palavras ao meio e colocar os substantivos no singular, enquanto os pronomes ficam no plural, que temos a nossa língua. Experimentem! Ficará por exemplo, “os menino”. E a brincar a brincar, eles entendem melhor esta fala do que o nosso português correcto! :-)
Não sei se já foi referido, mas no meio de tantas actividades, não se pode esquecer as aulas para casais, dadas pelas nossas psicólogas de serviço, Patrícia e Helena, que também dão consultas a quem quiser. E fazem-no ao som de quê? Não, não é “o cheirinho a sabonete” do ambiente. O som é outro… ”O aviãozinho” e o “Tapete Voador” tiveram um sucesso entre a pequenada que não queiram saber! Agora a toda a hora e mesmo sem monitoras, só se ouvem estas duas! E ainda bem, porque amanhã é a festa e estes são dois dos números a apresentar.

Dia 10 de Agosto, 5ª feira

Calabaceira limpa, Calabaceira bonita

5ª feira. Já falta pouco para regressarmos. Mas antes ainda há muito a fazer. Por exemplo, há um muro em volta da escola à espera de pintoras. Mas não pensem que é uma questão de estética o que nos move. Não. O muro pintado será um “veículo de educação ambiental para as crianças da escola e toda a população que se depare com ele”. A alguns miúdos menos endiabrados é-lhes permitido pegar nas trinchas e pincéis. A primeira tarefa é cobrir tudo de branco. Os mais velhos que por cá andam a rondar também ajudam, com a condição de virarem as camisolas ao avesso para não serem descompostos em casa pela roupa estragada nos salpicos dos rolos… E agora, com a tela pronta, a querida Ana Elisa desenha campos de flores, meninos de um castanho escuro fantástico felizes, muitos animaizinhos, toda a natureza em harmonia. Noutro local, são colocadas duas cenas: A “Calabaceira feia e suja”, e a “Calabaceira limpa, Calabaceira bonita”, muito bem caracterizadas. A primeira mais parecida com o estado actual do Bairro, verdade seja dita. Já nos tinham dito que um dos grandes problemas da Calabaceira era a sujidade e a falta de limpeza. Há alguns contentores do lixo, apesar de poucos e a recolha não ser assim muito constante. Mas o problema é que as pessoas estão habituadas a atirar tudo para a rua, muitas vezes janela fora. A ribeira por detrás e à volta da escola onde estamos, cheia de lama a seguir às enxurradas, tem “carradas” de lixo, porque todo o mundo faz dela o contentor. Daí grande parte do cheiro tremendo do bairro. Não cremos que seja falta de informação o que a população tem. Toda a gente sabe que o lixo se põe em lugares próprios. Parece antes haver um certo comodismo e desleixo. “Toda a gente faz o mesmo!” E as pessoas não estão motivadas para a limpeza. Desta forma, o muro que será acabado antes de irmos, serve de motivação e campanha silenciosa. Mas não nos ficamos por aqui. Depois de uma manhã de trabalho árduo, no qual se aproveitaram o conhecimento da realidade, as orientações do Departamento de Saneamento da Câmara Municipal e as dicas de marketing da Maria Coutinho, fizeram-se uns panfletos “Calabaceira limpa, Calabaceira bonita”, que apelam ao maior cuidado com o ambiente, com as ruas, a ribeira, com os contentores, com a água e higiene. Conseguidas as fotocópias na Câmara, distribuíram-se por todo o Bairro, porta a porta. E para ter mais impacto, as voluntárias do ambiente (tire-se-lhes o chapéu porque elas fizeram de tudo, até apanhar lixo com as mãos para incentivar os miúdos!) divididas por grupos pequenos de crianças, vão às casas delas fazer campanha ambiental às suas famílias. Foi mais uma saída massiva pelo Bairro que deu bem nas vistas! Toda a gente acha muita piada! Esperemos que não se fique só pela piada e mudem alguns comportamentos.
No fim do muro terminado, já com um canteiro meio pintado, o entusiasmo dos miúdos é enorme. É a vez deles marcarem o muro com as suas mãos com tinta - tipo impressão digital -, porem o seu nome e escreverem por baixo um compromisso para com o ambiente. Então pode ler-se no muro agora “Vou limpar a rua”, “Vou cuidar a água”, “Não vou deixar deitar lixo para o chão”, “Vou pôr o lixo no contentor e as águas sujas na ribeira”, “Vou cuidar das plantas”, etc., etc. - pequenos frases que tentavam sintetizar o que foi assimilado durante a quinzena. Esperamos que isto deixe a parede para passar a prática. Pela adesão que as crianças dão às actividades do ambiente, faz pensar que só precisam de ser incentivadas, porque têm vontade para fazer as coisas e cabeça para entender a sua necessidade.
Mas devemos dizer com toda a justiça que a cereja no bolo do Ambiente é mesmo a canção que a Guida e Lda inventaram. Toda a gente a canta! O que é bom, porque é muito… como dizer?, convincente?! Vejam um pouco da letra: “Lavar as mãos, sempre antes de comer, cheirinho a sabonete, só pode dar prazer!”… É o delírio dos nossos cantores! Já para não falar do Para-para-papa-para-papa… ao Puru-puru-púpú!!!!
Enquanto umas pintam, outras ensaiam com as adolescentes a dança “Festa no Gueto”, um sucesso! Muito maior que o Quim Barreiros, que parece ser o único cantor português conhecido pelos miúdos (E muito apreciado deve dizer-se. Bem se diz que um profeta nunca é aceite na sua terra…). Como se pode imaginar, todos os dias vão mudando as dançarinas e é preciso impor regras, o que agora é mais fácil, pois as professoras já conhecem muitas pelos nomes. No teatro, lá continua a luta para ver se até sábado se consegue ter alguma coisa preparada para a festa. Sim, porque vai haver festa!
À noite, com todas meias mortas, nada melhor que um espectáculo Cabo-verdiano, que nos dedicam as pessoas da terra, a convite do Manú: uma Batucada, com as batucadeiras e os “bailarinos”. Em redor nos bancos do pátio da escola primária, ao luar, começam os batuques, tocados por um grupo de mulheres vestidas a rigor, com uma espécie de almofada de pele / napa (?) no colo, entre os joelhos; depois uma voz entoa uma canção que todas as outras vozes acompanham. E isto vai subindo de ritmo e intensidade. Ao mesmo tempo e à luz de lanternas, meninos e meninas pequeninos e outros maiores vão desafiando a anatomia e os ângulos supostos para o movimento das articulações (especialmente da bacia)!... Aquilo é demais, parece que se desconjuntam, abanam-se, abanam-se… Até a Luisinha e a Joana Nestor têm de pendurar o pano à cintura (sem o qual não se dança) e “dar… ao rabo”, perdoem a expressão. Saem-se bem as nossas meninas, mas realmente, nós temos os ossinhos mais todos no lugar; há coisas que já não podemos fazer...
Depois deste ritmo todo, um colchãozinho vigiado por umas quantas melgas está mesmo a chamar por nós. Valem os repelentes, se bem que o seu efeito é só de 3 ou 4 horas, pelo menos a Raquel Machado, a menina dos cremes e das soluções, de 3 em 3 horas, mesmo a dormir, lá saca do seu spray e vá de se borrifar toda (mesmo assim, tem o braço todo picado). Já agora, querem saber qual é o truque para não ouvir as melgas de noite? Sim, porque há algumas que não se importam com as picadas, não podem é dormir com a cantoria das melgas! A solução é dormir de auscultadores nos ouvidos, toda a noite a ouvir musiquinha! Quais cães e gatos e conversas e jogadores de futebol cantores! Dorme-se que é uma maravilha!...

Dia 9 de Agosto, 4ª feira

Só luta quem tem uma meta pela qual lutar e um caminho para chegar até lá

Aqui no bairro o dia começa muito cedo. Às vezes não se percebe se acaba muito tarde ou se começa realmente cedo. A impressão que dá é que não chega a acabar. E isto porque fora dos muros da escola toda a noite há música, sempre naqueles ritmos acelerados, vinda de alguma casa ao longe ou dos carros que passam na estrada. Ouvem-se cães e mais cães e gatos, muitos gatos, naquele mio tipo choro de bebé muito irritante, e também vozes, e gritos, e algum tiro aqui ou ali. Ainda não se cansaram estes actores e entram em cena os já referidos jogadores de futebol que às 6h da manhã iniciam o treino com cantorias. Para além de tudo isso, como os chuveiros são só 6 (entenda-se chuveiro = lugar de um metro quadrado de área com uma coisa cinzenta de metal pendurada no alto da parede, sem função conhecida para além de pendurar as meias, cujo solo tem um buraquinho para onde pode escorrer água e que possui um balde e uma caneca dentro), até dá jeito começar cedo o dia. Até porque umas devem tratar do pequeno-almoço, outras da capela… Meio ensonadas, lutamos depois, por manter a atenção na meditação que o sacerdote prega às 8h. Ainda não está terminada e já entra na capela muita gente do bairro que quer assistir connosco à Missa. O sacrário, de noite vazio, volta a ser habitado, para que durante o dia, voluntárias, crianças e adultos do bairro, por lá passem a falar com Jesus. É importante esta presença. É importante porque precisamos muitas vezes de relembrar porque viemos e porque fazemos o que fazemos. Em muitas actividades, passado o entusiasmo das primeiras vezes, é por entrega e amor que continuamos animadas a trabalhar, mesmo no meio da maior confusão e até parece, às vezes, ineficácia. O dispensário médico, o ambiente, as artes, o próprio teatro, a catequese, são algumas das actividades das quais poderíamos dizer isto. Mas também não vínhamos à espera de outra coisa. Mais ou menos sabíamos o que nos esperava. E estamos todas muito contentes. Todas, mesmo aquelas a quem os intestinos traíram já. Diarreias, dores de cabeça, até um pouco de febre e má disposição já bateram à porta de algumas de nós (que o diga a Ana Raquel ou a Ana Elisa, ou ainda a Sónia, Filipa Félix e a Rusa, que não sabem o que as espera até ao fim).
As actividades com as senhoras e adolescentes vão de vento em popa: aulas sobre higiene e cuidados básicos de saúde (by Cátia, Kika, Catarina e Mané), culinária (by Maria Beltrão e Sílvia), ética (by Rusa, Cátia e Marta Costa), Nutrição (by Sofia e Diana), SIDA (pelas mesmas), até etiqueta as mais novas têm, a pedido delas (by Luisinha, Maria Coutinho, Maria Sampaio, …) e informática. Depois de instalados os computadores (alguns dos quais vindos nos contentores) pela Inês de Braga e a Gisela, as inscrições para a informática foram a cereja no bolo para a população. Toda a gente quer informática. As professoras, Gisela, Luciana, Inês e Sofia, não têm mãos a medir. Cada um só pode estar uma hora e é suposto que nesse tempo, 2 a 3 alunos por computador (no total são 6), aprendam a ligar o computador (parece óbvio, meus amigos, mas não é assim tão simples, para quem nunca viu um computador à frente), carregar no iniciar, mexer no teclado e abrir o Word. Para os miúdos há que ir ao Paint e aos jogos. E querem lá ver que quando se lhes pede para escrevem qualquer frase no Word, aparecem coisas como “Gostamos muito de ter cá as portuguesas”… Não é de ficar babado?...

Dia 8 de Agosto, 3ª feira

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

É terça-feira. Os trabalhos continuam e cada vez mais exigentes. Os miúdos são aos magotes para os jogos, para as artes, para os teatros (já viram o que é ensaiar uma peça, onde todos os dias mudam os actores?) e até para a catequese se for dia de receber terços ou Bíblias ilustradas :-). São difíceis de controlar e em muitas alturas a única forma de pôr alguma ordem é ensinar-lhes a gritar ordenadamente. O duo Guida Marcelino & Sara Carvalhais (sem dúvida contrastante…) e as suas canções do ambiente acompanhadas de garrafas de água vazias com pedras dentro (quais tambores!) foi das formas mais inteligentes de pôr a malta toda a gritar ao mesmo tempo. Isto, claro está, ao mesmo tempo que o Sacerdote tenta ouvir a confissão de mais um catraio que entra na capela (um dos muitos!). Esta é uma das cenas mais interessantes do dia. Temos o sacerdote, o confessionário, o penitente …e o público constituído por 7 ou 8 cromos que se penduram na janela da capela para tentar cuscar! Ah! E falta depois a Lena ou a Raquel à porta da Igreja a tentar manter a ordem!
São miúdos fantásticos, estes! Na catequese demonstram saber imensa coisa e deliram com os vídeos do “Super Livro”, numa sala com uma televisão pequena e 100 cabecinhas encarapinhadas a tentar ouvir alguma coisa, fora as ameaças que entram e saem a cada momento pela janela! Pois, que em Cabo Verde, aquilo que temos como óbvio e certo deixa de existir, coisas simples como as portas abrem-se com as mãos e é por elas que se entra e sai dos compartimentos; coisas como as cadeiras servem para nos sentarmos, ou úlceras na perna doem; ou para fazer “necessidade” procuramos um sítio escondido. Isto e muito mais não é verdade aqui…
Para além das actividades lúdicas que lhes proporcionamos, os miúdos ocupam o dia a jogar a bola descalços, a fazer fila à porta do dispensário médico à espera de receber um elástico para o cabelo (mesmo que “eu seja um menino, porque é para a minha irmã”, ou “mesmo que eu tenha 70 anos, porque é para a neta que não tenho!”); ajudam-nos a acarretar água para podermos cozinha e tomar “banho”, têm informática e participam na recolha do lixo. Por aquilo que nos vão dizendo, estão a adorar, porque eles “amam muito as portuguesas”. Têm uma grande necessidade de atenção, de carinho. Habitualmente não se gosta muito que nos estejam sempre a tirar fotografias, mas esta malta arranha-se para fazer altas poses para qualquer máquina fotográfica que apareça. É difícil tirar fotos a um menino sozinho, por muito que se queira, pois ao ver uma máquina o resto da miudagem acorre aos montões e só saem fotos de grupo. Já muitas de nós foram presenteadas com cartas e desenhos que alguns fazem “para as portuguesas” - a Luisinha deve ter o record dos recadinhos - e outros presentinhos que eles conseguem não se sabe bem onde. São demais!
E para continuar a falar em records, a equipa médica está a estabilizar em cerca de 80 - 100 doentes vistos pelas nossas médicas pediatra (Mila Ruas) e clínica geral (Teresa Ferro) - com o apoio inestimável das finalistas Anica e Ana Isabel -, e uns 100 pensos feitos pelo resto do pessoal! Uma verdadeira empreitada! Há que salientar o papel inestimável da futura caloira de medicina Carolina Sampaio, que entre os gritos para pôr em ordem a multidão que diariamente se acumula à frente do pseudo consultório (ai, Dr.ª Carolina!), às fichas de 1ª triagem de cada um dos doentes e às estatísticas diárias, fazem prever um futuro profissional brilhante e multifacetado! E o começo das consultas de psicologia para as quais a Helena e a Patrícia Vieira já começaram a ser solicitadas…
Chegamos ao fim do dia estoiradas mas felizes. Claro que, apesar das limpezas (que sempre ocupam as manhãs de um grupo numeroso cuja composição vai mudando e cabendo a vez a todas), da cozinha, da musculação para acarretar água do poço, das actividades e agitação omnipresente dos miúdos, as corridas para passear na cidade e explorar o Sucupira, …, ainda há quem se anime a um desafio de futebol (sim, Gisela, Joana & Co.) ou a uma partida de ténis (sim, é verdade, houve quem trouxesse raquetes - … Salomé… - e até já lhes conseguiu dar utilização) É muito bom estar aqui.

terça-feira, agosto 08, 2006

Dia 7 de Agosto, 2ª feira

Pés descalços correm devagar

Ao reflectir sobre esta nossa jornada, apercebemo-nos que esta viagem pode servir-nos para compreender ou decidir algumas coisas necessárias para a vida de cada uma. Há a esperança que este nosso projecto reflicta não só mudanças internas dentro do “nosso” Bairro, mas também no coração de cada uma de nós. Talvez as dúvidas que trouxemos para cá se transformem em certezas na volta a Portugal. É impressionante o bom ambiente que se vive entre todas. Os sacrifícios que se fazem umas pelas outras, a boa vontade com que se fala e atende a todas, as conversas animadas e mais sérias que se têm… Viemos para servir. E por isso não se refila, não se queixa, não se desiste. Mesmo quando são 23h e depois de um dia estafante alguém te pede se podes “proceder à desinfestação” do cabelo que esteve em grande intimidade com cabeças cabo verdianas. E isso significa uma grande aventura: 2 jarros de água, um balde para a recolher, um pino para se conseguir lavar tudo muito bem, a que lava e a que é lavada e as amigas dela que ajudam a passar a meia hora em que o Quitoso tem de actuar. E depois há sempre alguma que tira fotografias. E outras que passam e perguntam o que é que se passa. Este, é portanto, um momento alto de solidariedade voluntária.
Só hoje fazemos a devida honra à comida cabo verdeana que temos tido às refeições. Cachupa à maneira, Congo (um tipo especial de feijão), filetes de atum, peixe serra, etc… E as deliciosas manguinhas, que se amassam e chupam, e fazem a delícia de todas!
A equipa do ambiente estreou hoje um ovo jogo: a vassoura humana. Tudo alinhado, vai percorrendo o pátio da Escola até ficar tudo um brinquinho. Um êxito!
Novo record de poupança de água: 1 duche apenas com um copo!!! Hihihi! Não dizemos quem o bateu…

Dia 6 de Agosto de 2006, Domingo

Sol Cinzento

Hoje acordámos todas mais cedo e preparámo-nos para visitar novos sítios e conhecer melhor a Ilha de Santiago, além da Cidade da Praia. Apesar de nos termos atrasado um bocadinho, assim que saímos da Escola em dois autocarros pequenos passámos por várias localidades como pico do António (o mais alto da Ilha, quase 1.400m), Serra Malegueta ou Santa Catarina. Parámos no Centro de Formação Agrónoma de S. Jorge dos Órgãos, onde tirámos algumas fotografias e contemplámos uma paisagem verdejante – coisa que ainda não tínhamos tido o privilégio de observar. Esta é a imagem de África que muitas traziam na cabeça. Entre as montanhas e relevo abrupto da paisagem vulcânica, dificilmente cultivável (só em socalcos, como no Douro…), pelas recentes chuvadas cresce uma poalha verde que parece veludo e recobre tudo.
Parámos na cidade de Assomada onde visitámos o mercado com cheiro a linguiça grelhada ao sol. Frutos tropicais e outras iguarias tentam os nossos orçamentos… E mesmo ao lado, uma loja chinesa, entre as muitas que estão aparecer por todas as cidades e recantos do país.
No Tarrafal, visitámos a prisão tão conhecida, onde presos políticos foram exilados antes do 25 de Abril. Impressionante! Sobretudo a “figideira”, onde os presos chegavam a sofrer temperaturas de 40 a 60ºC.
Chegamos à Praia do Tarrafal, largámos as “trouxas” e corremos para o mar, mergulhar na água quentinha. Finalmente água e abundância!!! – mesmo que salgada. Enquanto umas se deliciam com os prazeres dos banhos de mar, as braçadas até aos barcos – de um dos quais demos uns belos mergulhos, a boleias de mota de água (não é, Joana Nestor e Raquel B?), outras adormecem nas suas toalhas aproveitando as abertas de sol. Houve quem experimentasse beber o refrescante leite de coco, directamente do coco. Ainda se regateiam umas compras com os vendedores de rua e contentes com o negócio, regressámos.
Assim que chegámos à Escola, sentimo-nos todas muito cansadas. O que mais queremos é tomar um bom banho. Estreou-se, para algumas, um novo estilo, no pátio, mergulhando as cabeças nos baldes – recomendado pela Maria Beltrão -, com grande êxito e adesão.
Comemos qualquer coisa simples, e dormir… dormir…

Dia 5 de Agosto de 2006, Sábado

Bairro Sujo, Cidade Pobre, Mundo Distante

Hoje de manhã decorrem as actividades como o habitual. À tarde não estão programadas actividades, pois vamos celebrar uma Missa campal com a população. Por isso organizamos um grande grupo e vamos até à Cidade da Praia.
O autocarro em que partimos é pequeno, avança pelo caminho, buzinando e acenando a todos quanto passavam. Além das paragens previstas, não deixa de apanhar um ou outro que corre atrás do autocarro… e até faz marcha atrás para lhe facilitar a vida.
Chegadas à Cidade, deparamo-nos com um cenário de contrastes. Alegramo-nos ao compará-la com o “nosso” Bairro, mas ao mesmo tempo impressiona-nos pensar que é a Capital de um País.
O pior é o cheiro! Por todo o lado mistura-se o odor de lixeiras em tudo o que é lugar, sem regra, da terra muito seca, dos animais, dos automóveis, das casas a precisar de um banho e do peixe à beira da estrada a secar para ser vendido (bem pulverizado com pesticida para afastar as moscas).
Isa, a nossa nova amiga que nos ajuda na cozinha, mostra-nos a Cidade e o Mercado Sucupira, ajudando-nos a explorá-lo. É um lugar atafulhado de barracas onde os estrangeiros tentam regatear os preços com os donos, levando sempre a melhor. Passamos e vão-nos dizendo “que gostam muito de portuguesas”.
Assim que chegamos à Escola, dá-se início à Missa Campal, reunindo no mesmo espaço várias pessoas do Bairro e todas as Voluntárias. O coro é cabo verdiano e é um momento muito alto este. As pessoas vivem profundamente a sua fé e gostam das palavras que o Sr. Padre lhes dirige, de confiança nas suas capacidades, de esperança no futuro deste bairro “que tem de ser o mais bonito da cidade da Praia”. Na homilia o Padre Gomez Pablo explicou quais as condições para que isso possa acontecer: usar a inteligência, a cabeça, e pôr o coração, a vontade; e depois trabalhar muito, e fazer o bem, bem feito. Se todas as pessoas quiserem não faltará muito para isso. Precisam é de acreditar em si próprias e saber que são capazes. Vontade não lhes falta. Ao contrário do que poderíamos pensar, as pessoas aqui são inteligentes e quase toda a gente que tem falado connosco sabe ler e escrever. Os miúdos mostram saber muito e no que diz respeito à catequese surpreendem-nos porque, levamos o nosso latim preparado para explicar tudo, mas ao perguntarmos-lhes as coisas, eles respondem a tudo. E todos sabem a ladainha do terço que rezam fielmente todas as tardes connosco no adro da “nossa capela”. É gente muito boa.
E assim, decorre mais um dia de trabalho.

Dia 4 de Agosto de 2006, 6ª feira

“Se olhássemos para o céu, víamos Deus chorar…”

Todos os dias, acordamos ao som do “Aleluia” cantado durante mais de meia hora pelos jogadores de futebol, que se reúnem às 6.30h da manhã no campo mesmo atrás dos nossos quartos. Depois, olhamos à nossa volta e é triste perceber a miséria em que vive esta gente. É impossível conseguirmos queixarmo-nos do que quer que seja, ao ver e imaginar a forma precária em que vive a maioria das pessoas da Calabaceira. Qualquer picada de mosquito, ou noite mal dormida ou até mesmo qualquer má disposição é ultrapassada ao ver as feridas abertas nos pés, ou fome e a sede sentidas pelas crianças. Os jogadores de futebol matinal são nigerianos, e estão a preparar a partida que vai haver no Domingo. Não deixa de ser curioso verificar que, apesar de tudo, Cabo Verde é um país de acolhimento para muitos outros povos – guineenses, senegaleses, nigerianos, Mali, …
As actividades matinais correram bem. Hoje para além do Teatro, Artes Manuais, Catequese e as Danças, fizeram-se Palestras sobre cuidados práticos importantes na vida doméstica.
Continua a correr a voz pela Calabaceira e arredores das actividades e do atendimento médico, e cada vez vão aparecendo mais pessoas. As médicas Mila Ruas e Teresa Ferro, com as quase médicas Anica e Ana Isabel, e as caloiras de medicina Cátia e Catarina, com a aprendiz de enfermagem Raquel e a pré caloira Carolina…, não têm mãos a medir de manhã e à tarde! Já começaram a fazer um ficheiro de doentes, há marcações de consulta quase até ao final da nossa estadia.
Mais interessante do que a formação ou o tema escolhido, foi a troca de impressões entre nós e a população. Ficamos a saber melhor sobre os seus problemas e também como gostam de nos ter cá. Até pedem mais aulas sobre isto e aquilo e alteram-se os planos de acordo com os pedidos. As pessoas estão muito felizes. Oferecem-se para ajudar e prometem-nos cuzcuz e outras comidinhas boas daqui. Apercebemo-nos da falta de horizonte de muitas destas jovens que frequentam as actividades. E já estamos a palpar o resultado de alguma conversa “espevitante”, como a que teve a Luisinha e a Lena Forte com um grupo de raparigas, das quais uma já se decidiu fazer uma empresa em vez de viver à custa dos pais e sem fazer nada o dia inteiro.
À noite, na tertúlia, estivemos a cantar e a aprender novas danças.

Dia 3 de Agosto de 2006, 5ª feira

A poeira assentou e o Projecto começou

O dia começa… e hoje tudo é mais sentido. Como se conseguíssemos tocar em cada sorriso ou gesto que nos é lançado pelas crianças que nos esperam agarrados aos portões da Escola.
Retomamos o trabalho em cada grupo de actividades, fazendo o esforço para levar até eles a alegria de um dia diferente. A sensação que fica é a de cá estar há mais de uma semana. O cansaço do trabalho para fazer deste pedaço de terra um lugar melhor é exaustivo. Apesar de a temperatura não ser muito elevada, estamos continuamente a transpirar.
Entretanto, o tempo relativiza-se e damo-nos conta que os dias da semana estão a terminar… Enquanto isso, o Dispensário médico ficou pronto e iniciaram-se as consultas para crianças e adultos. Logo de seguida a notícia correu pelo Bairro e aquele pequeno espaço encheu-se de pessoas com patologias diversas. Desde pequenos cortes, a conjuntivites, hipertensão, diabetes e… falta de atenção. As pessoas procuram-nos porque querem que falemos com elas e se possível… querem levar uma fralda, um leite infantil, uma pomada, mesmo que aquilo não vá servir para nada.
Nas Artes Manuais, os mais pequenos fazem moinhos de papel e os mais crescidos bonecos feitos de balão. Ao mesmo tempo, no Teatro, organizam-se grupos para fazer o jogo da mímica. Segue-se a Catequese sobre a Nossa Senhora e o Terço, convidando para a recitação conjunta às 19h15, na rua, já com a noite a cair.
Depois dos Jogos, almoçámos, seguindo-se o Circulo e a Palestra.
Às 17h00 recomeçou a actividade sobre o Ambiente, iniciando-se a transformação da matéria orgânica em fertilizante. É o que chamamos “composto”. Pensamos que não vai ser fácil, pela falta de humidade, de terra, e pelo facto de estarmos a competir com os porcos, para quem habitualmente vão todos os restos orgânicos. Mas como temos uma filósofa em fase de doutoramento a dirigir as operações, a Sara, cremos que as nossas intenções de melhorar os solos e combater a desertificação em Cabo Verde vão ser conseguidas!
Chegou o resto do material que enviámos em contentor, depois das várias diligências no Porto feitas pela Luciana e pela Lety. Fizemos uma cadeia em que as crianças também participaram – o que foi uma grande ajuda!
Depois do jantar, juntamo-nos para partilhar as experiências vividas ao longo do dia. Apercebemo-nos que apesar de todas as dificuldades, o trabalho está a ser produtivo nos diferentes campos, o que nos dá alento para os próximos dias.

Dia 2 de Agosto de 2006, 4ª feira

Sorrisos Limpos, (em) Bairro Sujo

O dia amanhece e o sol encontra-se escondido, para o nosso alívio. O chão da escola está molhado e o pátio lá fora enlameado. Durante a noite voltara a chover, surpreendendo umas tantas (Xanda, Gisela, Guida, …) que, por não suportarem o calor das salas de aula transformadas em dormitórios, tinham dormido ao relento.
Já tudo mais organizado, podem encontrar-se alguns dormitórios altamente sofisticados, com mosquiteiros e tudo. Para gáudio de muitas, arranjaram-nos colchões para quase todas – o que fez uma enorme diferença na qualidade do sono. A maioria deles foram emprestados pela população do Bairro, a quem agradecemos profundamente.
Depois do pequeno-almoço tomado, cada uma segue para os seus encargos, distribuídos criteriosamente pelo Staff - Helena e Xanda.
Os diferentes grupos vão-se formando, muitas crianças juntam-se à nossa volta, e a primeira sensação é de desorganização e caos. O grupo de Artes Manuais forma-se enquanto o Dispensário Médico é limpo e organizado. A equipa da actividade de Educação Ambiental tenta transmitir os primeiros conceitos, de um modo interactivo, à criançada, que parece muito motivada: a relação da saúde com o ambiente, o ciclo da água, etc. Tivemos a ajuda do Eng.º Luís, da Câmara Municipal da Praia, que também ajudou a enquadrar e a definir as prioridades do saneamento e do ambiente na Calabaceira. Mais tarde fala-se de Jesus aos meninos. Seguem-se os Jogos, mesmo antes do almoço.
À tarde umas descansam, enquanto outras partem à descoberta da Cidade da Praia.
Na actividade prática sobre o Ambiente, da parte da tarde entre as 17h e as 19h, crianças divididas em grupos berram e dispersam. São incontroláveis e o melhor é conformarmo-nos com isso. Seriam mais de 200? Cada grupo tem o nome de um animal e fica incumbido de recolher o maior número de papéis, plásticos, latas e vidros, separadamente. Um dos membros anota as unidades recolhidas de cada tipo de resíduo, outro apanha, outro segura no saco. Ao sair do recinto da escola, pensamos que se fossemos nós a apanhá-lo não saberíamos por onde começar. Mas eles parecem determinados. Avançam descalços por entre o vidro, connosco a fazer caretas de cada vez que um deles pisa algo perigoso. Invadimos Bairro acima por entre ruas e becos encardidos. As pessoas sorriem, chamando-nos “as portuguesinhas”. No fim, como desejável, deixámos todo o lixo recolhido nos contentores.
A meditação, ao final do dia, ajudou a sedimentar tudo o acontecido.
Quando nos despedimos, os meninos, ficam com o ar de quem ficaria connosco a noite toda.
À noite distribuíram-se tarefas e responsabilidades, e para ser mais fácil a relação, toda a gente foi “etiquetada” com o seu nome…
Uma das tarefas mais necessárias consiste em tirar água do poço e levá-la para os bidons que estão nas casas de banho. As técnicas variam e, sob o comando da Rusa, os “stocks” estão garantidos. Começam a aparecer records para o número de canecas por duche! Há já quem consiga tranquilamente banhar-se apenas com 1 canecanecazita (cerca de 1 litro)!

Dia 1 de Agosto de 2006, 3ªfeira

Surpresa Castanha …, Agri-Doce

Finalmente chegámos, depois das grandes expectativas criadas em várias cidades ao longo do rectângulo lusitano!
E connosco chegou a chuva, que nesta terra é uma bênção, há muito tempo desejada – há mais de 8 meses não chovia, e a noite foi de tormenta, como nos contou a Raquel Lamela, que nos esperava com uma das forças vivas locais, a D. Nandinha.
À nossa espera estavam também as forças armadas: homens robustos que nos puxaram, e à nossa múltipla bagagem (30kg per capita, 15 dos quais, no mínimo, de material comum), num só trago para cima de uma camioneta de caixa aberta, bastante enferrujada.
A viagem foi radical, ao vento, por entre o pó da estrada, com algumas ultrapassagens que nos fizeram subir a adrenalina… (aquele cara a cara com o táxi…).
Não há fotografia, nem postal, nem filme, nem descrição, capaz de transmitir o que sentimos. O cheiro, a humidade, o calor, o castanho invade-nos todos os sentidos, impedindo-nos de respirar. No coração de cada uma de nós instala-se a surpresa do entrar num mundo diferente.
Casas cinzentas e inacabadas, misturadas no castanho e negro de uma paisagem vulcânica, ressequida pela seca que grassa no país há mais de 15 anos; algumas acácias, aqui e ali, são das poucas sobreviventes entre as espécies vegetais; mulheres, homens e crianças, na sua azáfama citadina, lembram-nos desde já aqueles a quem queremos beneficiar directamente com a nossa estadia. Um cenário real em que não se deixa de destacar uma pobreza que a maioria de nós até agora não conhecia.
Atravessamos a Cidade da Praia onde reinam os contrastes entre casas com cores vivas e estruturas de prédios cinzentas e nuas. Ouve-se música quente vinda de todo o lado. As crianças brincam no meio da lama, resultante da chuvada da noite anterior, os adultos sentam-se em conversa alegre nas esplanadas tristes.
Aproximamo-nos do nosso Bairro, Bairro da Calabaceira. Avistámos por fim a Escola Secundária onde vamos ficar. Uma ilha trazida da civilização ocidental plantada junto a uma larga ribeira, seca e suja, que ladeia todo o Bairro. É impressionante o contraste entre o azul e branco da Escola e o castanho das ruas.
Braços acenam à nossa chegada e os sorrisos abertos das voluntárias que chegaram na noite anterior recebem-nos entusiasmados, afagando qualquer amargura que nos tivesse assaltado pelos contrastes já visualizados. Estavam em plenas limpezas e, por isso, especialmente desgrenhadas e encardidas, quase irreconhecíveis. Foi óptimo juntar toda a equipa do Projecto Cabo Verde 2006!!!
Apesar de nova (oferta da cooperação luxemburguesa, inaugurada há pouco mais de 6 meses), a Escola ainda não tem luz nem água por razões…, no mínimo curiosas… (falcatruas do electricista, disseram-nos). A racionalização destes bens, apesar dos esforços que nos exigirá, vêmo-los como uma aproximação às carências com que a população da Calabaceira e dos restantes bairros limítrofes da Cidade da Praia vivem.
Juntámos os esforços de todas e aprontámos o resto das salas da Escola Primária – ao lado da nossa. Uma delas foi transformada em Capela, com o parecer técnico de arquitectas em projecto bastante conceituadas (Inês Trigo) e as múltiplas opiniões e sugestões das que passavam por ali. Dentro dos possíveis pensamos que ficou digna e vai-nos permitir ter a companhia do Senhor na Eucaristia durante os próximos dias. Celebrou-se a Santa Missa e apoiámos ali o trabalho que vamos realizar.
E para terminar bem o dia, devido à chuva, uma praga de formigas voadoras gigantes invadiu a Escola, fazendo pensar a muitas se tinham feito bem em vir…
Neste fim de dia, resta-nos apenas organizar por alto a bagagem e o início deste nosso projecto.

quinta-feira, julho 20, 2006

Angariação de patrocinadores


Estamos ainda a tentar a cobertura dos gastos orçamentados.
Os donativos ao abrigo da Lei do Mecenato proporcionam benefícios fiscais à pessoa ou instituição que os efectua, nos termos do DL n.º 74/99 de 16 de Março, artigo 1º, n.º 2 e artigo 10º, n.º 2 do CIRC.
Pessoas Singulares – os donativos são majoradas em 20% e dedutíveis à colecta em valor correspondente a 25% do valor atribuído (DL n.º 74/99 de 16 de Março, artigo 5.º, n.º 1, alínea b).
Instituições – os donativos são considerados custos em valor correspondente a 120% do respectivo total (DL n.º 74/99 de 16 de Março, artigo 1º, n.º 3).

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