Projecto Cabo Verde 2006

Voluntariado universitário de Portugal, em colaboração com associações locais da Cidade da Praia, tendo em vista a promoção do desenvolvimento humano e cultural da população da Calabaceira

sábado, agosto 26, 2006

Dia 9 de Agosto, 4ª feira

Só luta quem tem uma meta pela qual lutar e um caminho para chegar até lá

Aqui no bairro o dia começa muito cedo. Às vezes não se percebe se acaba muito tarde ou se começa realmente cedo. A impressão que dá é que não chega a acabar. E isto porque fora dos muros da escola toda a noite há música, sempre naqueles ritmos acelerados, vinda de alguma casa ao longe ou dos carros que passam na estrada. Ouvem-se cães e mais cães e gatos, muitos gatos, naquele mio tipo choro de bebé muito irritante, e também vozes, e gritos, e algum tiro aqui ou ali. Ainda não se cansaram estes actores e entram em cena os já referidos jogadores de futebol que às 6h da manhã iniciam o treino com cantorias. Para além de tudo isso, como os chuveiros são só 6 (entenda-se chuveiro = lugar de um metro quadrado de área com uma coisa cinzenta de metal pendurada no alto da parede, sem função conhecida para além de pendurar as meias, cujo solo tem um buraquinho para onde pode escorrer água e que possui um balde e uma caneca dentro), até dá jeito começar cedo o dia. Até porque umas devem tratar do pequeno-almoço, outras da capela… Meio ensonadas, lutamos depois, por manter a atenção na meditação que o sacerdote prega às 8h. Ainda não está terminada e já entra na capela muita gente do bairro que quer assistir connosco à Missa. O sacrário, de noite vazio, volta a ser habitado, para que durante o dia, voluntárias, crianças e adultos do bairro, por lá passem a falar com Jesus. É importante esta presença. É importante porque precisamos muitas vezes de relembrar porque viemos e porque fazemos o que fazemos. Em muitas actividades, passado o entusiasmo das primeiras vezes, é por entrega e amor que continuamos animadas a trabalhar, mesmo no meio da maior confusão e até parece, às vezes, ineficácia. O dispensário médico, o ambiente, as artes, o próprio teatro, a catequese, são algumas das actividades das quais poderíamos dizer isto. Mas também não vínhamos à espera de outra coisa. Mais ou menos sabíamos o que nos esperava. E estamos todas muito contentes. Todas, mesmo aquelas a quem os intestinos traíram já. Diarreias, dores de cabeça, até um pouco de febre e má disposição já bateram à porta de algumas de nós (que o diga a Ana Raquel ou a Ana Elisa, ou ainda a Sónia, Filipa Félix e a Rusa, que não sabem o que as espera até ao fim).
As actividades com as senhoras e adolescentes vão de vento em popa: aulas sobre higiene e cuidados básicos de saúde (by Cátia, Kika, Catarina e Mané), culinária (by Maria Beltrão e Sílvia), ética (by Rusa, Cátia e Marta Costa), Nutrição (by Sofia e Diana), SIDA (pelas mesmas), até etiqueta as mais novas têm, a pedido delas (by Luisinha, Maria Coutinho, Maria Sampaio, …) e informática. Depois de instalados os computadores (alguns dos quais vindos nos contentores) pela Inês de Braga e a Gisela, as inscrições para a informática foram a cereja no bolo para a população. Toda a gente quer informática. As professoras, Gisela, Luciana, Inês e Sofia, não têm mãos a medir. Cada um só pode estar uma hora e é suposto que nesse tempo, 2 a 3 alunos por computador (no total são 6), aprendam a ligar o computador (parece óbvio, meus amigos, mas não é assim tão simples, para quem nunca viu um computador à frente), carregar no iniciar, mexer no teclado e abrir o Word. Para os miúdos há que ir ao Paint e aos jogos. E querem lá ver que quando se lhes pede para escrevem qualquer frase no Word, aparecem coisas como “Gostamos muito de ter cá as portuguesas”… Não é de ficar babado?...