Dia 14 de Agosto, 2ª feira
Último dia em Cabo Verde. As consultas e os pensos continuam em marcha da parte da manhã. Enquanto isso, há que fazer limpezas a toda a escola, às salas das actividades, arrumar o material que trouxemos para o distribuir às pessoas responsáveis, desde o hospital e centro de saúde à escola primária, deixar tudo arrumadinho, fazer as malas. Dão-se os últimos presentes aos miúdos e fica aqui um caso em particular que impressionou muito a Cátia. Um rapazinho com os seus 11 anos, no final da manhã, quando ela regressava das limpezas no dispensário médico após o fim dos pensos, abeira-se-lhe e pergunta se não lhe pode dar as sandálias, que leva calçadas. Por acaso até as tinha trazido já para ficarem, no lixo provavelmente, porque já eram muito velhas. Alem disso, todas sujas. Diz-lhe que já são muito velhas e estão sujas, se ele quer aquilo assim. Ele diz que sim, que não tem mais calçado e que quer ficar com elas. Deu para pensar nos vários pares de sapatos que ficaram em casa e sentir-se ridícula. Respondeu-lhe que então, ia “tomar banho”, lavar depois as sandálias e que as traria para ele. Pergunta se podia ficar à minha espera. Diz-lhe que sim. Passada hora e meia volta. E lá está ele ao portão. Dá-lhe as sandálias lavadas, que ele calça logo, e uma t-shirt da Sapo. A cara radiante com que ficou encheu-lhe a alma…
Depois de tudo arrumado, ainda há tempo para irmos à cidade gastar os últimos escudos ou acabar as trancinhas. Há gritos, muitos gritos desta vez. Parece que é a Gisela e a Ana Raquel. “É que elas puxam mesmo, pá, não dá para aguentar!” Às 18h volta a haver missa campal, vespertina da grande festa da Assunção de Nossa Senhora, feriado em Portugal e também aqui.
No final, é a despedida. Há lágrimas, canções, danças, a viola da Joana e a “Calabaceira é bonita”, 5º sucesso introduzido na cultura cabo-verdiana pelas portuguesas. Abraços, beijinhos, promessas de regressar, autógrafos, fotografias… Que bom foram estes dias aqui passados! Que saudades já, e ainda não partimos! Mas é verdade também, que já sentimos umas saudaditas de Portugal!... Seja como for, valeu a pena, valeu a pena tudo.
No meio de dias tão alegres e divertidos, só mesmo a morte de um rapazinho do Bairro. que passava férias noutra ilha e a cujo funeral assistimos, é que turvou o rosto desta gente. Todo o tempo restante foi de grande convívio, serviço, partilha, amizade, entrega recíproca, conversa animada, jogos, cantorias, danças, aprendizagens, pinturas e… composto! Sim, meninas, porque caso não saibam, o composto foi melhorado no último dia com os restos orgânicos da nossa comida, acumulados ao longo deste tempo, que foram carinhosamente depositados, cobertos com terra, folhas secas e regados com água. Quando voltarmos para o ano e virem o fertilizante que saiu dali e a horta da escola verdejante, vão todas calar-se e deixar de gozar com a Guida e a Sarinha, mais os sacos de restos vegetais fedorentos que acumulavam… Ai as meninas… Viva o composto! Viva!
Bem e depois do jantar é hora dos últimos retoques. Deixar tudo pronto, pegar nas malas e já ali estão os tropas que nos vão levar para o local de onde nos trouxeram. À partida, muitos miúdos e graúdos nos acenam (nem a Selecção tem um acolhimento destes!) e o Sr. Ângelo, um dos professores da escola que muito nos ajudou nestes dias, oferece-nos pastilhas e amendoins para a viagem, que fazem as nossas delícias. São sorrisos que ficam gravados na nossa memória.
No aeroporto estamos, sem exagero, 2-3 horas à espera do check in e depois para entrar no avião, porque como já dissemos, o nosso ritmo não é o ritmo de Cabo Verde. E enquanto eles trabalham calminhos, a maioria do grupo arrasta-se e à malas, a Maria Coutinho pega na sua almofada e deita-se no chão, muitas em cima das malas, a Cátia aproveita para tirar as últimas fotos (sim, porque ainda faltam 20 para chegar às 891 do cartão) e vamos tentando não desesperar. Já no avião, onde a Sara Tavares também vai (há vinda tinha sido o Jorge Andrade), só temos cabeça para pôr o cinto e… dormir até à hora do pequeno-almoço, 6h. Atrasamos os relógios 2 horas e… Lisboa à vista! Que diferença de paisagens! Prédios, estradas, rotundas, postes de electricidade, campos cultivados… Portugal! É bom estar de volta. Mas melhor ainda é ter tudo isto para contar! Sim, porque a Calabaceira não termina aqui, assim. O que é que vamos fazer com os dias que passámos lá? O que vamos guardar? O que vamos viver a partir daqui? Regressamos diferentes, isso todas notamos. E não dizemos só mais sujas. Dizemos por dentro (e não são os intestinos…). Foram um tesouro estes dias. Uma grande riqueza. Não tenho dúvida nenhuma que ganhámos todas muitíssimo mais do que o que demos, que foi uma gota num oceano. O que vamos então fazer com o que recebemos durante estes dias? Eis a recomendação expressa da Cátia (a escrivã da 2ª parte do diário, a partir do dia 8; antes foram as valorosas Catarina e a Filipa Félix que, entre as dificuldades da falta de computador, da falta de electricidade - que tanto “vai-se como vem-se”…. -, da falta de tempo, conseguiram dar os primeiros sinais de vida para os leitores do blog…): Não se esqueçam de continuar agora a ser voluntárias, sim, voluntárias, em casa, com a família, no bairro, na catequese, na faculdade, entre os amigos e os namorados… Voluntárias: aquelas que estão, que vão, que fazem, que são o que lhes diz a vontade, sem obrigações. Então queiram muito! Como nos dizia, e à população da Calabaceira, o sacerdote que nos acompanhou nestes dias, “sejam valentes e façam o bem bem feito”! Até para o ano, amigas! Vão juntando bonés!
Post scriptum: como estamos com problemas em pôr fotos no blog, avançamos com as fotos da Gisela, para matar alguma curiosidade. Cremos que ela não se importará :-)
E para continuar a estar a par do PROJECTO CABO VERDE - sim, vai ter continuidade! - consultar o site do Projecto.
