Projecto Cabo Verde 2006

Voluntariado universitário de Portugal, em colaboração com associações locais da Cidade da Praia, tendo em vista a promoção do desenvolvimento humano e cultural da população da Calabaceira

sábado, agosto 26, 2006

Dia 10 de Agosto, 5ª feira

Calabaceira limpa, Calabaceira bonita

5ª feira. Já falta pouco para regressarmos. Mas antes ainda há muito a fazer. Por exemplo, há um muro em volta da escola à espera de pintoras. Mas não pensem que é uma questão de estética o que nos move. Não. O muro pintado será um “veículo de educação ambiental para as crianças da escola e toda a população que se depare com ele”. A alguns miúdos menos endiabrados é-lhes permitido pegar nas trinchas e pincéis. A primeira tarefa é cobrir tudo de branco. Os mais velhos que por cá andam a rondar também ajudam, com a condição de virarem as camisolas ao avesso para não serem descompostos em casa pela roupa estragada nos salpicos dos rolos… E agora, com a tela pronta, a querida Ana Elisa desenha campos de flores, meninos de um castanho escuro fantástico felizes, muitos animaizinhos, toda a natureza em harmonia. Noutro local, são colocadas duas cenas: A “Calabaceira feia e suja”, e a “Calabaceira limpa, Calabaceira bonita”, muito bem caracterizadas. A primeira mais parecida com o estado actual do Bairro, verdade seja dita. Já nos tinham dito que um dos grandes problemas da Calabaceira era a sujidade e a falta de limpeza. Há alguns contentores do lixo, apesar de poucos e a recolha não ser assim muito constante. Mas o problema é que as pessoas estão habituadas a atirar tudo para a rua, muitas vezes janela fora. A ribeira por detrás e à volta da escola onde estamos, cheia de lama a seguir às enxurradas, tem “carradas” de lixo, porque todo o mundo faz dela o contentor. Daí grande parte do cheiro tremendo do bairro. Não cremos que seja falta de informação o que a população tem. Toda a gente sabe que o lixo se põe em lugares próprios. Parece antes haver um certo comodismo e desleixo. “Toda a gente faz o mesmo!” E as pessoas não estão motivadas para a limpeza. Desta forma, o muro que será acabado antes de irmos, serve de motivação e campanha silenciosa. Mas não nos ficamos por aqui. Depois de uma manhã de trabalho árduo, no qual se aproveitaram o conhecimento da realidade, as orientações do Departamento de Saneamento da Câmara Municipal e as dicas de marketing da Maria Coutinho, fizeram-se uns panfletos “Calabaceira limpa, Calabaceira bonita”, que apelam ao maior cuidado com o ambiente, com as ruas, a ribeira, com os contentores, com a água e higiene. Conseguidas as fotocópias na Câmara, distribuíram-se por todo o Bairro, porta a porta. E para ter mais impacto, as voluntárias do ambiente (tire-se-lhes o chapéu porque elas fizeram de tudo, até apanhar lixo com as mãos para incentivar os miúdos!) divididas por grupos pequenos de crianças, vão às casas delas fazer campanha ambiental às suas famílias. Foi mais uma saída massiva pelo Bairro que deu bem nas vistas! Toda a gente acha muita piada! Esperemos que não se fique só pela piada e mudem alguns comportamentos.
No fim do muro terminado, já com um canteiro meio pintado, o entusiasmo dos miúdos é enorme. É a vez deles marcarem o muro com as suas mãos com tinta - tipo impressão digital -, porem o seu nome e escreverem por baixo um compromisso para com o ambiente. Então pode ler-se no muro agora “Vou limpar a rua”, “Vou cuidar a água”, “Não vou deixar deitar lixo para o chão”, “Vou pôr o lixo no contentor e as águas sujas na ribeira”, “Vou cuidar das plantas”, etc., etc. - pequenos frases que tentavam sintetizar o que foi assimilado durante a quinzena. Esperamos que isto deixe a parede para passar a prática. Pela adesão que as crianças dão às actividades do ambiente, faz pensar que só precisam de ser incentivadas, porque têm vontade para fazer as coisas e cabeça para entender a sua necessidade.
Mas devemos dizer com toda a justiça que a cereja no bolo do Ambiente é mesmo a canção que a Guida e Lda inventaram. Toda a gente a canta! O que é bom, porque é muito… como dizer?, convincente?! Vejam um pouco da letra: “Lavar as mãos, sempre antes de comer, cheirinho a sabonete, só pode dar prazer!”… É o delírio dos nossos cantores! Já para não falar do Para-para-papa-para-papa… ao Puru-puru-púpú!!!!
Enquanto umas pintam, outras ensaiam com as adolescentes a dança “Festa no Gueto”, um sucesso! Muito maior que o Quim Barreiros, que parece ser o único cantor português conhecido pelos miúdos (E muito apreciado deve dizer-se. Bem se diz que um profeta nunca é aceite na sua terra…). Como se pode imaginar, todos os dias vão mudando as dançarinas e é preciso impor regras, o que agora é mais fácil, pois as professoras já conhecem muitas pelos nomes. No teatro, lá continua a luta para ver se até sábado se consegue ter alguma coisa preparada para a festa. Sim, porque vai haver festa!
À noite, com todas meias mortas, nada melhor que um espectáculo Cabo-verdiano, que nos dedicam as pessoas da terra, a convite do Manú: uma Batucada, com as batucadeiras e os “bailarinos”. Em redor nos bancos do pátio da escola primária, ao luar, começam os batuques, tocados por um grupo de mulheres vestidas a rigor, com uma espécie de almofada de pele / napa (?) no colo, entre os joelhos; depois uma voz entoa uma canção que todas as outras vozes acompanham. E isto vai subindo de ritmo e intensidade. Ao mesmo tempo e à luz de lanternas, meninos e meninas pequeninos e outros maiores vão desafiando a anatomia e os ângulos supostos para o movimento das articulações (especialmente da bacia)!... Aquilo é demais, parece que se desconjuntam, abanam-se, abanam-se… Até a Luisinha e a Joana Nestor têm de pendurar o pano à cintura (sem o qual não se dança) e “dar… ao rabo”, perdoem a expressão. Saem-se bem as nossas meninas, mas realmente, nós temos os ossinhos mais todos no lugar; há coisas que já não podemos fazer...
Depois deste ritmo todo, um colchãozinho vigiado por umas quantas melgas está mesmo a chamar por nós. Valem os repelentes, se bem que o seu efeito é só de 3 ou 4 horas, pelo menos a Raquel Machado, a menina dos cremes e das soluções, de 3 em 3 horas, mesmo a dormir, lá saca do seu spray e vá de se borrifar toda (mesmo assim, tem o braço todo picado). Já agora, querem saber qual é o truque para não ouvir as melgas de noite? Sim, porque há algumas que não se importam com as picadas, não podem é dormir com a cantoria das melgas! A solução é dormir de auscultadores nos ouvidos, toda a noite a ouvir musiquinha! Quais cães e gatos e conversas e jogadores de futebol cantores! Dorme-se que é uma maravilha!...