Projecto Cabo Verde 2006

Voluntariado universitário de Portugal, em colaboração com associações locais da Cidade da Praia, tendo em vista a promoção do desenvolvimento humano e cultural da população da Calabaceira

sábado, agosto 26, 2006

Dia 11 de Agosto, 6ª feira

“É verdade, tou-lhe dizendo que tenho 11 anos…”

Foi falta grave das cronistas, mas até à data ainda não referimos a nova habitante da escola. Chegou na 2ªfeira passada de madrugada e veio para trabalhar: a Brízida! Da empresa “Molécula do Saber”, veio para dar um curso intensivo aos gestores e directores das escolas de toda a Cidade da Praia - cerca de 50 -, e por aquilo que conta a D. Bidi (que é a directora da escola primária onde damos as actividades, nosso braço direito), está a ser muito interessante. A Brízida rapidamente se adaptou às nossas casas de banho de copo e às refeições em movimento. Sim, porque pegamos nós no garfo para levar o empadão à boca e num zzás, 4 moscas pousam nele. Assim, temos de comer com uma mão e abanar com a outra. É giro. Às vezes mal se vê a loiça suja que fica pousada cá fora enquanto espera pela vez de ser lavada, tal é a quantidade de moscas que a cobrem. Há para aqui também umas formigas de cabeças brancas, umas baratas daquelas que fazem “crunch” quando se pisam e uns grilos gorduchos que completam a arca de Noé. De vez em quando tem de se ir buscar “Dum-dum” para mandá-los à vida! Mas nada a que não estejamos já habituadas.
E em relação à casa-de-banho de copo é bom notar que tendo em conta algumas curiosidades que não é bonito nem limpo contar agora, o nosso Staff viu-se obrigado a colocar nas casas de banho uns avisos que explicam tudo o que uma pessoa estranha à realidade precisa de saber para se comportar dignamente. Há uns poucos de avisos diferentes espalhados por toda a escola para que ninguém se perca. Mas os mais procurados por todas, são mesmo os que ficam ao pé da cozinha. Em cada dia, o nosso Staff - Xanda e Helena - faz a divisão das tarefas e à noite a romaria é até lá. Todas vão ver se não ficaram nas limpezas, mas como a escola é grande, calha sempre um bom grupo nestas tarefas.
Hoje o dia é de muito trabalho. Amanhã é a festa e tem de se ensaiar tudo. Uma paródia como sempre! No consultório e nos pensos as filas não param e já se instalou um cheiro tremendo de feridas em estado avançado no quartinho minúsculo onde fazemos estes últimos. O que vale são as velas de cheiro que a Raquel põe lá a arder (eu não disse que ela tinha solução para tudo?) e o frasco de água de colónia que a Cátia despeja no chão. Tem de ser! Pelo bem dos doentes! Bem, doentes, isso é que já é discutível. Cada vez mais os maiores curativos a fazer são fixos, de pessoas que vão lá todos os dias. Os restantes, são miúdos com feridas de muitos meses, que apodreceram, a quem não dói nada do que lhes fazemos e que esperam, mais que o curativo, o bonequito que lhes vamos dar no final. Sim, porque vendo a nossa despensa com tantas coisitas miúdas que conseguimos trazer de Portugal, levamos para o dispensário o que podemos para distribuir a quem lá vá. O problema é quando vão lá com feridas inventadas só para receber qualquer coisa. Às vezes vamos aos arames! E diz a Diana a uma miúda: “O que é que tu tens?” E apresentando-lhe um cotovelo completamente limpo, só se pode mesmo responder: “Ai é isso que tu tens, um cotovelo?! Olha, eu também tenho um desses! Mas isso não é para tratar!” E lá se vai a rapariguinha embora toda triste com o seu cotovelo.
Histórias destas também acontecem nas actividades com os miúdos. Por exemplo: a actividade é para crianças dos 10-12 anos. Chegam uns à porta e a monitora, cumpridora do seu dever, pergunta-lhes a idade. Eles deitam uma miradinha lá dentro, calculam mais ou menos a idade dos que lá estão e respondem com a maior naturalidade possível: “Tenho 11.” Perante tal facto, é claro que a monitora o deixa entrar, apesar de a sua memória visual lhe jurar que na véspera aquela mesma cara tinha 8 anos e esteve na outra actividade!
Outra que eles também gostam de fazer é usar o nosso nome para conseguirem alguma coisa. Como nós andamos etiquetadas toda a gente sabe o nosso nome. Então um Chico esperto vai à nossa escola e diz que a Cátia disse para lhe darem água. É claro que a Cátia nem o conhece, nem lhe falou, provavelmente, mas cruzou-se com ele o tempo suficiente para ler o nome na lapela (que por sinal está todo jeitoso, acompanhado de uma Cruz e uma Bíblia, símbolos da responsabilidade da catequese, mas que faz o gozo das demais. Que parece uma acólita, dizem!).
São estes os nossos miúdos. Marados, mas amorosos. E todos os dias alguma recebe um desenho com as voluntárias, uma carta, um presente… E já agora, não com os miúdos, mas com os mais velhos, se nós quiséssemos casamentos, não havia problema por estas bandas, era muita a oferta! Há uns episódios caricatos nestes assuntos. No fundo o que se nota nos mais velhos é o mesmo que se nota nos mais novos: carências. Todos querem carinho e atenção e vêem-nos assim disponíveis para todos, simpáticas e generosas, que se aproximam para ver se reparamos neles. E nós reparamos, porque gostamos de todos. Muito. As pessoas estão contentíssimas com a nossa presença e algumas disseram mesmo que tinham pena de isto ser por pouco tempo e que gostavam de também nos poder ensinar algumas coisas suas, “que houvesse mais intercâmbio”. É verdade que sai mais de nós para eles do que o contrário, porque o tempo esgota-se, mas temos de dizer que, por exemplo, no crioulo, a língua falada por toda a gente aqui (apesar do português ser a oficial), a Kika faz maravilhas. Pegou num bloquito e apontou umas quantas frases essenciais ao início de uma conversa. O resto, é só colocar um pouco de sotaque abrasileirado, abrir as vogais, falar alto, cortar as palavras ao meio e colocar os substantivos no singular, enquanto os pronomes ficam no plural, que temos a nossa língua. Experimentem! Ficará por exemplo, “os menino”. E a brincar a brincar, eles entendem melhor esta fala do que o nosso português correcto! :-)
Não sei se já foi referido, mas no meio de tantas actividades, não se pode esquecer as aulas para casais, dadas pelas nossas psicólogas de serviço, Patrícia e Helena, que também dão consultas a quem quiser. E fazem-no ao som de quê? Não, não é “o cheirinho a sabonete” do ambiente. O som é outro… ”O aviãozinho” e o “Tapete Voador” tiveram um sucesso entre a pequenada que não queiram saber! Agora a toda a hora e mesmo sem monitoras, só se ouvem estas duas! E ainda bem, porque amanhã é a festa e estes são dois dos números a apresentar.